30 December 2016

2016... Ano improvável (Parte 3)

Tal como Bowie e ao contrário de Prince, Leonard Cohen faz parte do restrito leque de músicos que me habituei a ouvir de forma ininterrupta ao longo dos anos.
Descobri a sua música em 1977, quando, com somente 15 anos de idade adquiri "Death of a Ladies' Man", disco que me cativou de imediato, tendo surgido dentro de mim um impulso sensorial que me levou à procura dos trabalhos anteriormente editados por este músico nascido no Quebec, Canadá, no ano de 1934.
Numa procura nem sempre fácil, pois na altura não existiam as tecnologias dos dias de hoje, consegui adquiri-los, "Songs of Leonard Cohen" (1967), "Songs From a Room" (1969) e "Songs of Love and Hate" (1971), sendo este último disco considerado por muitos como o seu melhor trabalho e uma obra incontornável na história da música, como incontornável é Leonard Cohen, homem discreto, sóbrio, encantador, dono de uma voz belíssima, e que destila charme por todos os poros da sua pele.
Ao olhar para uma foto sua, sempre de roupa escura e quase sempre com o seu chapéu, o nosso interior sente-se tocado, invadido; ao ouvir a sua música. os nossos sentimentos, a forma como nos sentimos no momento altera-se. Se estamos deprimidos, ela reconforta-nos; se estamos felizes, tem o dom de nos alegrar ainda mais.
No dia 07 de Novembro do improvável ano de 2016, Leonard Cohen partiu.
Soube-o uns dias mais tarde, dezoito dias decorridos do mês de Novembro. Estava longe do país onde resido e muito mais longe do país em que ele partiu. Por incrível que possa parecer, tinha feito um jejum de notícias de alguns dias e quando decidi aceder a sites noticiosos, levei outro murro no estômago, daqueles bem fortes que nos deixam sem respirar, sem capacidade de reagir. A primeira reacção que tive foi, e passo a citar "porra, morreu o Leonard Cohen".
Senti de imediato as lágrimas nos olhos, como se tivesse perdido alguém muito próximo, apesar de não o ser, longe disso. Leonard Cohen e a sua música faziam parte da minha vida como estando entranhados em mim, na minha pele.
Apesar de ser uma partida previsível atendendo à debilidade do seu estado de saúde nos últimos tempos, não deixa de ser um choque, uma injustiça levar um murro destes. Cohen sabia que estava prestes a partir naquela que seria a sua última viagem, sabia-o quando no dia 21 de Outubro deste ano lançou "You Want It Darker", onde diz, em forma de sussurro:

"If you are the dealer, I'm out of the game
If you are the healer, it means I'm broken and lame
If thine is the glory then mine must be the same
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

I'm ready my lord"

Ele estava... nós não.

Numa outra das belíssimas oito canções que completam este seu último disco, sussurra-nos, como se estivesse junto aos nossos ouvidos:

"I'm leaving the table
I'm out of the game"

Ouvir atentamente "You Want it Darker" acaba por tornar-se uma experiência intensa e dura.
Neste décimo quarto álbum de originais, Cohen consegue surpreender-nos, por incrível que possa parecer, não pela qualidade apresentada no disco mas pela sua enorme capacidade de não nos desiludir e simultaneamente fazer com que nos sintamos parte da sua vida, como ele fez, faz, e fará, da nossa. "You Want it Darker" tem o dom de fazer com que interiorizemos que somos aquilo que ele nos chamava nos concertos - seus amigos -, sentimos que quer partilhar connosco os seus bons e maus momentos, sentimos que nos queria confidenciar a brevidade da sua partida.
Neste disco de sensações belas e estranhas, sentimos que alguém está a cantar para nós, num jeito simultaneamente doce, alegre e triste, melancólico, e fá-lo de uma forma envolvente, uma das características dos seus concertos. Vi alguns, senti isso. Em certos momentos às lágrimas invadiam os meus olhos, sim, lágrimas de felicidade, só que agora, quando ouço o disco com que ele nos deixou, elas voltam, mas desta vez são lágrimas de tristeza.
Lacrimejei ao ouvir o disco, e em segredo chorei quando soube que ele nos tinha deixado... aos seus amigos.

29 December 2016

2016... Ano improvável (Parte 2)

Dia 21 de Abril, chego a casa cansado de mais um dia de trabalho, sento-me no sofá, ligo a televisão.
Ainda mal me acomodei e, "pás"... mais um murro no estômago.
Prince, muitas vezes apelidado de pequeno-génio de Minneapolis tinha partido.
Fiquei inerte ao ouvir a notícia da partida de mais um dos meus compositores preferidos.
Absolutamente genial, polémico, capaz do melhor e do pior, Prince Rogers Nelson editou mais de três dezenas de discos, entre o seu primeiro álbum "For You" editado em 1988 e o último "HITnRUN: Phase Two" editado em 2015, o que dá uma média superior a um disco por ano durante toda a sua carreira.
Sempre foi do conhecimento geral que Prince era um ávido compositor, constando ainda que, supostamente, terá deixado mais de uma centena de canções prontas a ser editadas. Consta também que passava os dias a compor, não sendo de estranhar ao analisarmos a sua produção musical
Não sendo, digamos, tão transversal como Bowie, Prince deixou uma marca incontornável no panorama musical, com trabalhos de enorme qualidade, como por exemplo "Purple Rain" (1984) que deu origem a um filme com o mesmo nome no qual é o actor principal, "Sign 'O' Times" (1987) ou "The Love Symbol Album" (1992).
Graças à sua ânsia de editar novos trabalhos e dar vazão à sua criatividade, teve uma carreira com muitos altos e baixos, vagueando por vários estilos musicais, desde o Funk ao Rock, passando pelo Jazz, e envolvendo-se em projectos de curta duração.
Como todos os génios, tinha algo de louco, não sendo de estranhar algumas facetas da sua personalidade muito peculiar, como por exemplo o facto de ter mudado de nome várias vezes, a sua guerra contra quem publicava vídeos e fotografias dos seus concertos na Internet e a sua luta pela defesa dos direitos de autor. A título de curiosidade pode-se referir que não existia qualquer vídeo dele que pudesse ser visto no Youtube, tendo inclusivamente processado quem insistia em os publicar.
Excêntrico, compositor genial, em palco movia-se de forma espectacular, dançava lindamente e era considerado por muita gente um dos melhores guitarristas do mundo, apesar de a sua música não assentar numa estrutura que permitisse grandes solos. Tinha uma forma muito particular de tocar, extraindo o som dos solos da sua guitarra com a mão que marcava a nota, enquanto com a outra, a direita, gesticulava e representava.
Inesquecível no Festival Super Bock Super Rock na Aldeia do Meco em que, ao lado de Ana Moura, Prince "cantou" com a sua guitarra o fado "Vou dar de beber à dor". Ana Moura cantou e Prince fez o mesmo com a guitarra sem cantar, em 2010.
No dia 21 de Abril deste improvável ano de 2016, Prince partiu com apenas 57 anos de idade.
Não me tendo marcado de forma tão indelével como por exemplo David Bowie, a música de Prince também preenche uma grande parte da banda-sonora da minha vida e, para além disso, sou dos que o considera um dos melhores guitarristas de sempre, e a guitarra é o meu instrumento preferido.
Sei que partiu, mas deixou-nos um legado enorme, e espero que se confirme o rumor de que deixou mais de uma centena de canções prontas a serem editadas.

28 December 2016

2016... Ano improvável (Parte 1)

O ano que agora termina ficará na história da música como um dos piores de sempre; se não o pior.

Seria impensável que num só ano partissem quatro nomes incontornáveis e transversais do mundo musical.

Fatidicamente, somente com onze dias decorridos, levo o primeiro murro no estômago.
Na manhã desse dia, ao acordar, assim que ligo o pequeno rádio que me faz companhia matinal, ouço numa estação improvável, falar de David Bowie. Com uma sensação mista de pavor por aquela rádio estar a falar nele, e em estado de pré-choque, ouço a notícia da sua partida. Bowie tinha-nos deixado no dia anterior, 10 de Janeiro.
Dois dias antes tinha editado "Blackstar", trabalho de imensa qualidade e repleto de simbolismo. Ouvi-o no dia em que foi editado, quatro vezes seguidas, num "repeat" que se pretendia saciador, mas que se revelou incapaz de o ser, tal era o prazer sentido ao ouvi-lo. Disse-o nesse mesmo dia, a quem me era próximo, "este vai ser o melhor disco de 2016". Não me enganei.
"Blackstar" é daqueles trabalhos que se revela diferente de cada vez que o ouvimos; é como quando apreciamos uma pintura ou uma escultura: nunca é igual, e de cada vez que detectamos um pormenor, esse pormenor torna ainda mais belo o que estamos a apreciar.

"Look up here, i'm in heaven,
I've got scares that can't be seen
I've got drama, can't be stolen
Everybody knows me now

"Look up here man, i'm in danger
I've got nothing left to loose
I'm so high it makes my brain whirl
Deopped my cell phone down below
..."

Foi com a crueldade destas palavras assentes numa base musical dura, que Bowie nos deixou, aos 69 anos de idade e 49 após a edição do primeiro disco, "David Bowie" em 1967.
Desde então editou uma quantidade considerável de trabalhos, nem todos de grande nível é verdade, mas, para contrabalançar esses discos menos conseguidos, lançou muitos que perdurarão para sempre na história da música de forma incontornável, como por exemplo a famosa trilogia de Berlim, "Low" e "Heroes" de 1977, e "Lodger" de 1979, entre muitos outros, mas seria demasiado exaustivo estar aqui a mencioná-los.
Por exemplo, quem não dançou, cantou, chorou, riu e foi feliz ao som de Absolute Beginners, Let's Dance, China Girl, Wild is The Wind, Seven, ou ainda Thursday's Child, entre tantos outros temas de um músico que me habituei a ouvir, quase diariamente, desde o início dos anos 70 e até aos dias de hoje, um músico que quando lançava um novo disco tinha em mim um efeito estranho e doentio, uma doença salutar que me enchia de prazer e ansiedade, pois não descansava enquanto não o tinha, deitava-me tarde ou acordava cedo, não interessava; o que interessava era ter oportunidade de o ouvir, de o devorar até à exaustão, que nem sempre surgia, e de acrescentar mais uma série de temas à banda-sonora da minha vida, da qual já faziam parte muitas das suas canções.
Neste improvável ano de 2016, David Bowie deixou-nos, hoje já acredito nisso, mas inicialmente, tenho de confessar que julguei ser uma manobra de marketing, um rumor, um boato, algo que viesse a ser desmentido. Sei que Bowie não alinhava nesse tipo de propaganda, mas mesmo assim, esperei, esperei... e esse desmentido nunca surgiu. Afinal era verdade.
Ainda hoje, é com sentimento de tristeza e olhos a quererem verter as lágrimas que me esforço por conter, que fico, quando ouço algumas das suas músicas, principalmente aquelas que mais me marcaram e acompanharam nos bons e maus momentos ao longo de mais de 40 anos, e, quando ouço "Blackstar", o disco em que se despede de nós, esse esforço é insuficiente, e sinto os olhos marejar.