19/10/21

Ao vivo... Rock Rendez-Vous

Folheto encontrado na internet com alguns concertos agendados na mítica sala da Rua da Beneficência, em Lisboa, no ano de 1983
Por esta acolhedora sala passaram muitos grupos de rock português que aproveitaram o boom surgido no início dos anos 80 após a edição de "Ar de Rock" do Rui Veloso, apelidado por muitos como o pai do rock português, algo de que discordo completamente.
Dos grupos que surgem nesta lista, destaco os concertos a que assisti: Heróis do Mar, Go Graal Blues Band, UHF e Sétima Legião.

Os Heróis do Mar talvez tenham sido a banda de maior qualidade individual surgida no auge do rock português dos anos 80, o que acabou por gerar conflitos internos em termos de criatividade levando à sua extinção em 1989, deixando um dos mais ricos legados da música portuguesa, não só através das suas edições discográficas com discos de enorme qualidade, como também de grupos musicais a que deram origem e influenciaram, tendo inclusivamente produzido vários trabalhos de excelentes músicos.

Quanto à Go Graal Blues Band, nesta altura era formada pelo João Allain nas guitarras e o Paulo Gonzo na voz, que vinham da formação original, da qual já tinha saído o vocalista José Carlos Cordeiro que participou no primeiro álbum do grupo e no single "They Send Me Away". Faziam ainda parte do grupo (na altura deste concerto no RRV) Fernando Delaere no baixo e Hippo Birdie na bateria. Pouco tempos depois, devido a divergências internas, estes dois elementos abandonam o grupo e vão para os Roxigénio de António Garcez e Filipe Mendes. O grupo viria a terminar em 1987, após a edição e fracasso do álbum "So Down Train". Dos músicos que fizeram parte da Go Graal Blues Band, Paulo Gonzo seguiu carreira a solo e José Carlos Cordeiro fundou um novo grupo de Blues puro, Big Rolling Wheel, que editou o seu primeiro trabalho em 2017. Quanto a João Allain praticamente deixou de tocar.

Dos grupos que aparecem neste cartaz, o único que se mantém no activo são os UHF, sempre fieis ao seu estilo e liderados pelo carismático António Manuel Ribeiro. Esta banda de Almada já na altura era considerada uma das mais profissionais do panorama musical português. Actualmente continuam a editar discos com regularidade, discos que não deslumbram nem desiludem, não inovam e pouco acrescentam à longa discografia editada. Os UHF tornaram-se (cada vez mais) a banda de António Manuel Ribeiro, uma banda que gira em torno de um músico de mérito reconhecido, sobretudo em termos poéticos, só que ao terem esta "estratégia", fazem que não exista propriamente uma evolução, mas sim uma continuidade, visto assentar tudo numa só pessoa. Uma banda com muitos anos de estrada e de discos.

Os Sétima Legião que se formaram em 1982 aproveitando o chamado boom do rock português tiveram uma carreira que durou praticamente até ao início do ano 2000. Editaram vários discos sempre num estilo muito próprio onde criavam uma fusão de música pop-rock com música tradicional portuguesa recorrendo a instrumentos como gaita-de-foles, viola-d'arco e samplers, criando um som característico e de muita qualidade. Os Sétima Legião foram uma das grandes bandas surgidas na altura e que, tal como os Heróis do Mar, deixaram um excelente legado musical com temas que hoje em dia são considerados clássicos da música portuguesa, como por exemplo "Glória", "Sete Mares" ou "Por Quem Não Esqueci".

Finalmente, e mais a título de curiosidade, abordo Landum, Ricardo Landum. Fundador dos TNT, grupo que durou pouco tempo e editou três singles, tendo obtido bastante sucesso com o primeiro "Tudo Bem". Os TNT também passaram pelo RRV e terminaram a sua actividade após o fracasso do terceiro single "A Miragem". Desde essa altura Ricardo Landum tentou a sua carreira a solo falhando completamente e, após isto, dedicou-se à função de produtor e a escrever canções de música ligeira, a chamada "Música Pimba", onde, aí sim, obteve enorme sucesso. Escreveu temas para vários cantores, dos quais se podem destacar Ágata e, principalmente, Tony Carreira, sendo alguns dos maiores sucessos deste músico de autoria de Ricardo Landum.

31/05/21

Lisa Gerrard & Jules Maxwell - Burn

"Burn" de Lisa Gerrard e Jules Maxwell (teclista dos Dead Can Dance) será, seguramente, um dos grandes discos de 2021.
Os teclados e a estrutura musical criada por Maxwell e a voz celestial de Lisa transportam-nos para longe, para longe de tudo o que nos rodeia, para longe dos lugares que nos assombram, abrem as janelas que nos sufocam e levam-nos para um local imaginário, daqueles que nos dias de hoje são impossíveis de alcançar fisicamente, levam-nos para um mundo perfeito, fazem-nos acreditar que isso talvez exista, criam em nós algo parecido com "estado de transe" em que tudo pára para que possamos disfrutar desta música e desta voz.
Algo nos bloqueia quando a ouvimos cantar, mas por outro lado liberta-nos, liberta os nossos medos, as nossas ansiedades.
Mesmo cantando numa linguagem imperceptível, algo a que Lisa Gerrard nos habituou cantando no seu "Gerrardês", é como se esta música fosse cantada numa letra que todos nós percebemos, pois sentimo-la, a mensagem está lá, está no modo como é cantada, tocada e sentida.
Impossível alguém ficar indiferente à beleza de "Orion (The Weary Huntsman)".
Composto por sete temas, "Burn" é um disco obrigatório e viciante.

01 - Heleali (The Sea Will Rise)
02 - Noyalain (Burn)
03 - Deshta (Forever)
04 - Aldavyeem (A Time To Dance)
05 - Orion (The Weary Huntsman)
06 - Keason (Until My Strengh Retunrs)
07 - Do So Yol (Gather The Wind)

Nota - 9/10