28 December 2016

2016... Ano improvável (Parte 1)

O ano que agora termina ficará na história da música como um dos piores de sempre; se não o pior.

Seria impensável que num só ano partissem quatro nomes incontornáveis e transversais do mundo musical.

Fatidicamente, somente com onze dias decorridos, levo o primeiro murro no estômago.
Na manhã desse dia, ao acordar, assim que ligo o pequeno rádio que me faz companhia matinal, ouço numa estação improvável, falar de David Bowie. Com uma sensação mista de pavor por aquela rádio estar a falar nele, e em estado de pré-choque, ouço a notícia da sua partida. Bowie tinha-nos deixado no dia anterior, 10 de Janeiro.
Dois dias antes tinha editado "Blackstar", trabalho de imensa qualidade e repleto de simbolismo. Ouvi-o no dia em que foi editado, quatro vezes seguidas, num "repeat" que se pretendia saciador, mas que se revelou incapaz de o ser, tal era o prazer sentido ao ouvi-lo. Disse-o nesse mesmo dia, a quem me era próximo, "este vai ser o melhor disco de 2016". Não me enganei.
"Blackstar" é daqueles trabalhos que se revela diferente de cada vez que o ouvimos; é como quando apreciamos uma pintura ou uma escultura: nunca é igual, e de cada vez que detectamos um pormenor, esse pormenor torna ainda mais belo o que estamos a apreciar.

"Look up here, i'm in heaven,
I've got scares that can't be seen
I've got drama, can't be stolen
Everybody knows me now

"Look up here man, i'm in danger
I've got nothing left to loose
I'm so high it makes my brain whirl
Deopped my cell phone down below
..."

Foi com a crueldade destas palavras assentes numa base musical dura, que Bowie nos deixou, aos 69 anos de idade e 49 após a edição do primeiro disco, "David Bowie" em 1967.
Desde então editou uma quantidade considerável de trabalhos, nem todos de grande nível é verdade, mas, para contrabalançar esses discos menos conseguidos, lançou muitos que perdurarão para sempre na história da música de forma incontornável, como por exemplo a famosa trilogia de Berlim, "Low" e "Heroes" de 1977, e "Lodger" de 1979, entre muitos outros, mas seria demasiado exaustivo estar aqui a mencioná-los.
Por exemplo, quem não dançou, cantou, chorou, riu e foi feliz ao som de Absolute Beginners, Let's Dance, China Girl, Wild is The Wind, Seven, ou ainda Thursday's Child, entre tantos outros temas de um músico que me habituei a ouvir, quase diariamente, desde o início dos anos 70 e até aos dias de hoje, um músico que quando lançava um novo disco tinha em mim um efeito estranho e doentio, uma doença salutar que me enchia de prazer e ansiedade, pois não descansava enquanto não o tinha, deitava-me tarde ou acordava cedo, não interessava; o que interessava era ter oportunidade de o ouvir, de o devorar até à exaustão, que nem sempre surgia, e de acrescentar mais uma série de temas à banda-sonora da minha vida, da qual já faziam parte muitas das suas canções.
Neste improvável ano de 2016, David Bowie deixou-nos, hoje já acredito nisso, mas inicialmente, tenho de confessar que julguei ser uma manobra de marketing, um rumor, um boato, algo que viesse a ser desmentido. Sei que Bowie não alinhava nesse tipo de propaganda, mas mesmo assim, esperei, esperei... e esse desmentido nunca surgiu. Afinal era verdade.
Ainda hoje, é com sentimento de tristeza e olhos a quererem verter as lágrimas que me esforço por conter, que fico, quando ouço algumas das suas músicas, principalmente aquelas que mais me marcaram e acompanharam nos bons e maus momentos ao longo de mais de 40 anos, e, quando ouço "Blackstar", o disco em que se despede de nós, esse esforço é insuficiente, e sinto os olhos marejar.

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